Pontas dos dedos tocando ligeiramente a terra

Há séculos e séculos atrás, Bodhidharma, o fundador do que hoje é conhecido como o Zen, proclamou, com notoriedade, que trazia da Índia para a China ensinamentos transmitidos à margem dos textos e rituais especiais, ensinamentos esses que apontavam directamente para o coração humano. Quando foi questionado pelo imperador da China sobre a essência do budismo, Bodhidharma respondeu, também com notoriedade, “Vasto vazio, nada é sagrado”. Ele poderia ter dito, do mesmo modo, “Abundante riqueza, tudo é sagrado.” Bodhidharma estava simplesmente a indicar que não existe algo sagrado, por oposição a algo profano. Ele afirmava a verdade de que cada momento nos oferece a oportunidade de experimentarmos a inerente magnificência do todo que é a vida.

Hoje, a essência do Zen mantém-se inalterada, apontando directamente para o coração das nossas vidas, quem quer que sejamos, onde quer que estejamos. E a prática do Zen é, ainda hoje, apenas uma questão de se estar presente.

Numa das imagens tradicionais do Budismo – reproduzida em numerosas estátuas e pinturas clássicas – o Buda está sentado na posição de lótus, a palma da mão esquerda repousando no seu colo virada para cima, e a mão direita descaída, com as pontas dos dedos tocando ligeiramente a terra. Este mudra do tocar a terra, como é chamado, diz tudo, na perfeição: não há outro lugar que não seja o aqui, nem outro momento que não seja o agora. Olhem à vossa volta! Folhas caem das árvores, nuvens cinzentas e espessas, reflectem-se nas poças da rua. Um pássaro voa baixo . A respiração sobe, dissolve-se, volta a subir. Tudo é assim. Tudo o que necessitamos está aqui, agora, este mesmo lugar é o solo do despertar para a perfeita unidade e para a imensa diversidade de todos os seres e coisas.

Esta realidade nada tem a ver com o Budismo, Zen, com trajes, cerimónias, rituais, relíquias, com a cor das nossas vestes ou com o corte do nosso cabelo, com um título, uma posição ou um resultado. Ao se manifestar em todas estas inúmeras formas, esta realidade – este momento – é intrinsecamente imensurável, e não pode ser reduzida a tais medidas. Esta realidade tem tudo a ver com o estar apenas presente. Com o que quer que esteja a acontecer. No centro das vossas vidas. Pontas dos dedos tocando ligeiramente a terra.

Amy Hollowell Sensei

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